Antes de qualquer lembrança minha existir, houve um som.
Não sei se foi o galo desafinado de Exu, o vento batendo no telhado rachado da casa do meu avô, ou a viola dele marcando o tempo como quem tenta conversar com Deus. Só sei que, de algum jeito, foi ali que aprendi a ouvir o mundo e, sem perceber, comecei também a me ouvir por dentro.
Eu era só um menino, mas já entendia que algumas coisas chegam em forma de música antes de chegarem em forma de palavra. Que há dores que soam como notas agudas demais, e alegrias que vibram como se viessem de dentro do peito da gente.
O que eu não sabia, naquela época, era que crescer ia significar perder alguns sons e aprender outros. Que a vida ia me pedir silêncios. Que certos barulhos só fazem sentido depois que passam. E que, às vezes, a gente precisa se quebrar inteiro para descobrir qual é a própria melodia.
Por muito tempo achei que ouvindo mais do que os outros eu estaria um passo à frente. Eu conseguia perceber a tristeza escondida numa voz, o cansaço atrás de um sorriso, o medo que alguém tentava disfarçar. Mas nenhum dom vem sem preço. O meu me fez escutar coisas que eu não estava preparado para sentir.
Teve um dia — e todos têm um dia desses — em que o mundo ficou alto demais para mim. Barulhento por dentro, silencioso por fora. Foi quando percebi que, para continuar, eu teria que aprender a filtrar o que valia a pena manter e o que precisava deixar ir.
Se eu tivesse entendido isso antes, talvez muita coisa tivesse sido diferente. Mas a verdade é que a vida não se apresenta inteira. Ela se revela em partes, como uma música que você só entende depois do refrão.
Este livro é a história dessas partes. Do menino que escutava demais. Do homem que se perdeu no próprio ruído. E daquele que, entre o sertão, o amor e um livro entregue num banco de ônibus, encontrou um jeito novo de se ouvir.
Não escrevo este prólogo para explicar nada. Escrevo porque, se você chegou até aqui, talvez também esteja procurando uma forma de reorganizar seus próprios sons.
Seja bem-vindo à minha travessia. Que ela lhe faça boa companhia na sua.
— Marco Aurélio Januário da Silva